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Haiti: uma catástrofe geopolítica

por Rafa Albuquerque

Nunca o Haiti esteve em tanta evidência. E, justamente, por um fato tão triste e lamentável, mas, ao mesmo tempo — como se isso fosse algum consolo —,

inevitável. O terremoto vitimou fatalmente mais de 100 mil pessoas e atingiu de maneira direta outros 3 milhões de habitantes do país, aonde todos os fatores, como a pobreza, os baixos investimentos, a economia precária, os abusos em toda a sua história e, claro, sualocalização, contribuíram para o desastre.

A HISTÓRIA

O Haiti situa-se na porção insular da América Central, ou seja, faz parte das ilhas que formam as Antilhas. Próximo a Cuba e Jamaica, o país, junto com a sua vizinha territorial República Dominicana, compõe a Ilha Hispaniola, também conhecida como Ilha de São Domingos ou simplesmente Ilha Espanhola.

Segunda maior ilha do Caribe, como todos os países da América Latina a Ilha Hispaniola foi, como supõe-se pelo nome, dominada pela coroa espanhola até o final do século XVII, quando a região ocidental da ilha — onde hoje está o Haiti — foi cedida para os franceses.

As metrópoles, a exemplo de tantas outras explorações de colônias na América e favorecidos pelas boas condições para a agricultura, basearam completamente a produção na Ilha na forma de plantation, que, de maneira resumida, era uma produção monocultora (no caso, plantava-se  a cana-de-açúcar) e realizada por mão-de-obra escrava. Isso justifica a etnia da atual população haitiana que, no total, se aproxima de 9 milhões de habitantes, dos quais 95% são negros, descendentes diretos dos escravos. Os indígenas que habitavam a Ilha foram dizimados pelos homens brancos no final do século XV.

Foi um dos primeiros países a conquistar a sua real independência na América, e tal processo contou diretamente com o apoio efetivo de sua população, ou seja, os escravos. Por isso, se diz que a independência haitiana foi conquistada pelos escravos e, por consequência, quebrado o regime escravista.

"Papa Doc" Duvalier: O médico e o monstro

"Papa Doc" Duvalier: o médico e o mostro

Desde então, o país passou por inúmeras invasões e intervenções diretas dos EUA e severos regimes ditatoriais, como o comandado pela família Duvalier. François Duvalier, médico nascido em Porto Príncipe, capital do país, foi eleito presidente em 1957, instaurando um governo baseado no terror promovido pelos tontons macoutes,  sua guarda pessoal.

“Papa Doc”, como também era conhecido, permaneceu no poder do Haiti até a sua morte, em 21 de Abril de 1971, mesmo ano que seu filho, Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, herdou a presidência de seu pai. A dinastia Duvalier comandou os rumos do país até 1986. Mas, mesmo com tantos anos no poder, os Duvalier pouco fizeram para fortalecer a economia do país que, até hoje, baseia-se quase por completo na agricultura familiar. Mal existe um parque industrial no Haiti.

Em 1990, o país livra-se do regime ditatorial e elege de forma democrática seu novo presidente: o ex-padre Jean Bertrand Aristide. Mas a “liberdade” política durou pouco tempo. Em dezembro de 1991, Aristide foi derrubado por um golpe de Estado e condenado ao exílio. Apenas com a ajuda de tropas dos EUA, depois de 3 anos ele volta ao poder para, em 1995, entregar o cargo presidencial para René Preval, seu sucessor. Em 2001, Preval dá lugar novamente para Aristide através de uma eleição fraudada, que resultou em uma rebelião popular. Assim, devolveu, em 2004, a faixa para Preval, que permanece no poder até hoje.

De maneira resumida, a política haitiana dos anos 90 pode ser considerada como um revezamento entre Aristide e Preval, excetuando, logicamente, o período ditatorial (91-93).  Como fruto de toda essa política instável e corrupta que domina o Haiti durante todos estes anos, ficou marcada a Guerra Civil, que se arrasta dos anos 90 até hoje e teve forte repercussão nos anos 2000 .

A GEOGRAFIA

No desastre natural que atingiu o Haiti, talvez a maior responsável tenha sido suas condições e localização geográfica. Como se sabe, a Terra é composta por várias “grandes peças”, que se completam como um quebra-cabeça; são chamadas de placas tectônicas.

As fronteiras de todas as placas tectônicas do planeta


Geralmente, as bordas das placas tectônicas são praticamente um contorno do formato dos continentes, mas isso não acontece em todos os casos.

Encontros de placas tectônicas próximas aos continentes são a principal causa de abalos sísmicos como o que aconteceu no país caribenho.  Por exemplo, este é o principal motivo de, na América do Sul a porção ocidental apresentar acidentes geográficos — a cordilheira dos Andes — e ter um grande risco de terremotos e vulcanismo, e, na porção oriental, que corresponde à costa brasileira, uruguaia e argentina, não existir tais riscos ou acidentes.

Tudo isso porque no lado ocidental da continente, o encontro das placas tectônicas de Nazca e Sul Americana ser muito próximo ao continente; e, no oriental, a divisa entre a placa Sul Americana  e Africana estar bem longe da costa, no meio do Oceano Atlântico, formando um acidente geográfico no fundo do mar: a Dorsal Meso-Atlântica.

Já nas Antilhas, a possibilidade da existência de vulcões e terremotos é sempre presente, já que o arquipélago, situado na placa do Caribe, também chamada de placa Caraíbas, é cercado por três encontros tectônicos: ao norte, o choque entre a placa do Caribe e a placa Norte-americana; a sudoeste, um encontro entre a placa do Caribe e a placa de Cocos; e, ao sul, a placa Caribenha faz fronteira com a placa Sul-americana.

Quando tais placas se movimentam, causam os tremores de terra, ou, se submersos, outros efeitos, como a tsunami e maremotos. O que causou o abalo sísmico no Haiti foi justamente a movimentação entre as placas do Caribe e a Norte-americana, que, como ilustrado na foto abaixo, é muito próximo à capital Porto Príncipe.

O movimento de placas que provocou o abalo no Haiti


Tudo isso, misturado ao baixíssimo preparo para enfrentar situações assim e a pobreza imensa do país ( é o mais pobre da América, onde 45,2% da população é analfabeta e a expectativa de vida é de apenas 60,9 anos), apenas fazem da tragédia vivida pelos haitianos ainda mais difícil de ser contornada e uma suposta ascensão.

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Categorias: América Latina, Os titãs de Gaia [Meio Ambiente], Política Internacional

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