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Entrevista com Henry Alfred Bugalho

por Naldo Gomes

Henry Alfred Bugalho é graduado em Filosofia com ênfase em estética pela Universidade Federal do Paraná. É especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. É editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para mãos de vaca”. Mora, atualmente em Nova York, com sua esposa Denise.

SAMIZDAT (Polonês: Bibula ) era uma prática em tempos da União Soviética destinada a evitar a censura imposta pelos governos dos partidos comunistas nos países do Bloco Oriental. Mediante esta prática, indivíduos e grupos de pessoas copiavam e distribuíam clandestinamente livros e outros bens culturais que haviam sido proibidos pelo governo.

Segundo o site, a escolha do nome é fundamentada na seguinte justificativa: ” ‘Samizdat’ porque a internet é um meio de autopublicação, mas ‘Samizdat’ porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém”

O projeto existe há três anos e está na 24ª edição. Qual o  segredo para vencer tantos desafios? Confira esta e outras respostas na entrevista com Henry Alfred Bugalho

Naldo Gomes: Você acha que é possível romper com o bloqueio da mídia e da indústria cultural?

Henry Bugalho: A palavra “romper” possui dois sentidos, a meu ver: 1 – de uma criação paralela e independente à indústria cultural e 2 – de um processo de passagem de um estágio “fora da indústria cultural’ para “dentro dela”.

Nestes dois sentidos é possível sim romper, seja para se pôr à margem quanto para se inserir, com o establishment.

A cultura de massas precisa da renovação para se manter, e isto só ocorre quando o que está às escondidas é revelado. Por isto, há algum momento no qual o jovem artista é descoberto e tornado público como a novidade da vez. Só que esta publicidade não é acidental. A indústria cultural, como qualquer outro tipo de negócio capitalista, visa o lucro, portanto, é preciso ter certeza de que esta novidade retornará o investimento feito. Esta é a razão básica do porquê de ser tão difícil para um autor iniciante ser publicado, pois assim como no mercado de trabalho, que requer “formação e experiência” dum jovem recém saído da faculdade, o mercado editorial também requer do autor uma obra comercializável e, mais importante, um público leitor já existente. Não raro, em sites de editoras, há um formulário para o autor iniciante preencher, caso queira enviar um manuscrito para ser avaliado, com o seguinte campo: “quantos exemplares você acredita que seria capaz de vender de seu livro?” Ou seja, não basta escrever bem, é fundamental trazer leitores a tiracolo. Neste sentido, já ser conhecido por um grupo de leitores é uma maneira que o autor possui para conseguir publicar comercialmente seu primeiro livro. Por outro lado, a literatura marginal, underground, contracultural sempre esteve por aí, sendo sistematicamente ignorada pelas editoras e pela mídia. Muitos dos autores que integram este tipo de movimento se vangloriam desta indiferença, aliás, esta chega a ser parte da proposta deles; mas outros simplesmente ingressam neste universo paralelo porque não tiveram a oportunidade ou competência para se inserirem no mercado, e isto inclui grandes autores que só se consagram postumamente ou aqueles outros que publicam tiragens pagas do próprio bolso e que só vendem parcos exemplares para amigos e parentes. Alguns escolhem ser marginais, outros são marginalizados pelo mercado. No entanto, sei que existem casos de autores independentes que vendem relativamente bem e que até sobrevivem com a renda de seus livros, e que ocasionalmente até são descobertos e assimilados, mesmo que tardiamente, pela indústria cultural e vendidos como o “novo”.

N.G.: Sabemos que existe uma equipe multidisciplinar por trás da SAMIZDAT. Há quem estude as humanas, como filosofia, psicologia e o jornalismo. Mas também as exatas, como a matemática, a física e a computação. Como foi possível reunir todas essas “feras”, para falar de literatura, numa revista que não visa o lucro? Como você conseguiu essa façanha? Fale um pouco sobre a SAMIZDAT e sobre a equipe multidisciplinar que atua por trás dela.

H.B.: Acho que estas duas perguntas estão relacionadas, por isto vou respondê-las duma só vez. A Revista SAMIZDAT foi o resultado duma oficina literária que eu organizava. A multidisciplinaridade dos autores que a compõem foi algo natural, jamais planejado ou pretendido, apesar de aceito e estimulado. Esta oficina atraiu, inicialmente, um pequeno grupo de escritores em busca de troca de experiências, com as mais diversas formações; e um escritor foi convidando outro até chegarmos à atual composição da revista. Esta oficina era, a princípio, um grupo quase iniciático, fechado e para poucos leitores (que eram os próprios participantes da oficina). Mas chegou um momento em que propus, por causa da alta qualidade dos textos produzidos, que preparássemos uma revista digital para divulgarmos nossas obras. Não há nenhuma proposta marginal ou contracultural por parte dos autores da Revista SAMIZDAT. Não é nossa intenção revolucionarmos a literatura, ou enfrentarmos o mercado editorial, ou pormos um fim ao copyright, ou qualquer outra defesa ideológica ou política. Cada um dos autores possui uma concepção sobre tais assuntos (alguns até tencionam revolucionar a literatura ou enfrentar o mercado editorial), que podem estar de acordo com minhas concepções ou não. Isto é, no fundo, indiferente. O nosso elo é o fato de sermos autores preocupados com o ofício literário, a maioria não publicada – pelo menos, não comercialmente – e que queremos ser lidos. Disto resultou o nome da revista, SAMIZDAT, que em russo nada mais quer dizer que “autopublicado”. É claro que, ao rastrearmos a origem do nome e seu uso, chegaremos às publicações clandestinas na antiga União Soviética, que era o único meio pelo qual autores perseguidos pelo regime comunista conseguiam ser publicados. Talvez Alexander Soljenítsin seja o maior expoente literário a já ter publicado através das samizdats. Obviamente que SAMIZDAT traz uma carga de revolta e anseio por liberação. Contra um regime opressor é muito fácil de determinar um inimigo e encontrar meios para derrotá-los, mas numa época de suposta liberdade é mais complicado decidirmos contra quem voltaremos nossas armas. Para um autor não publicado, o primeiro grande inimigo é o mercado literário e sua indiferença. Então, a Revista SAMIZDAT surgiu como uma espécie de provocação, duma prova de que fora das grandes livrarias, longe das bienais, sem ganhadores de Jabuti ou Nobel, sem remuneração, é sim possível fazer literatura de qualidade, por vezes até melhor do que está sendo comercializado e ostentado em listas de mais vendidos. A Revista SAMIZDAT é, de fato, um desafio: “procuram bons escritores? Aqui estão! O que pretendem fazer com relação a isto?” E reunir uma equipe competente para isto, para escrever sem lucro, para alguns poucos leitores (se pensarmos proporcionalmente ao gigantesco rol de leitores possíveis), não é algo tão difícil, se considerarmos que quem escreve quer, acima de tudo, ser lido. Ser lido, isto é muito mais importante para mim, enquanto escritor, do que qualquer outra coisa.

N.G.: Como é o processo de produção da SAMIZDAT? É algo puramente artesanal ou existe um “quê” de taylorismo no meio dessa história?

H.B.: O processo de produção da Revista SAMIZDAT é um tanto anárquico. O mundo industrial nos habituou a um sistema hierárquico de gestão, aliás, bem antes disto, na política, no exército, nas empresas, na religião, estamos acostumados a um sistema piramidal, com um líder, governante, chefe, no topo da pirâmide e, através de ramificações e delegação de atividades, chegamos à base desta pirâmide com os trabalhadores braçais, ou algum tipo de classe subordinada. Por isso, é muito insólito para nós compreender uma gestão descentrada, tal qual o próprio funcionamento da internet.

Apesar de eu enfeixar algumas atividades centrais para a produção da revista, como a diagramação, seleção de textos, traduções e gerenciamento do blog, todas as atividades são compartilhadas e as funções são assumidas por quem se sentir apto ou disposto para isto. Por exemplo, ninguém nomeou o Joaquim Bispo para assumir a função de revisor. Foi ele, por decisão própria, quem considerou necessária uma revisão mais acurada dos textos. E o mesmo vale para a organização das entrevistas, para os convites de autores externos, para a seleção de textos em domínio público, e vários outros aspectos da preparação da Samizdat. Isto não que dizer que eu não seja obrigado a dar uns puxões de orelha na equipe, de vez em quando, ao perceber que eles estão deixando a peteca cair.

No entanto, tudo costuma fluir muito naturalmente, sem necessidade de intervenções duma cúpula editorial. Por isto, não há nada de taylorismo no processo, apesar de haver algumas funções delimitadas, mas também não chega a ser um processo artesanal, se pensarmos que tudo é feito virtual e digitalmente.

E a revista funciona quase como uma redação aberta a quem quiser ver ou participar. Discutimos a pauta do mês na comunidade da revista no Orkut, e em cada dia do mês postamos um texto no blog. Este conteúdo é reunido, diagramado e, no primeiro dia do mês seguinte, é publicada a revista digital, que é o trabalho pronto, a revista acabada. Se observarmos o percurso da revista, da primeira edição até hoje, poderemos notar uma evolução, duma primeira edição simples e tosca até uma publicação independente bastante sofisticada.

N.G.: A Revista SAMIZDAT ultrapassou 15 números e isso é uma experiência considerável. Contudo, a SAMIZDAT apresenta-se como uma revista que não visa o lucro, mas o prazer de escrever e de ser lido. Nesse sentido, há uma certa aura única que permeia essa revista eletrônica. Mas o que você pensa sobre reproduzir a Samizdat industrialmente, com o objetivo de vender? Você acha que isso dissolveria essa aura que a cerca atualmente? Seria algo mais ou menos parecido com a experiência do “Shock” teorizada por Walter Benjamin?

H.B.: Em tese, não haveria muita diferença, em termos de conteúdo e proposta, em publicar a SAMIZDAT comercialmente. Mas na prática teríamos de nos deter sobre uma série de problemas, e também haveria uma contradição fundamental: Samizdat é uma autopublicação; mas a partir do momento em que se torna uma publicação industrial, onde está a autopublicação? Onde está o princípio motivador? Onde se encaixa a necessidade de superar o fenômeno excludente do mercado editorial? Enquanto que isto significaria uma alteração do nosso estatuto de escritores e legitimaria mais nossas obras, também significaria uma descaracterização do que significa SAMIZDAT.

Contudo, eu não vejo problemas em se consolidar como escritor comercialmente e continuar tocando a SAMIZDAT nos moldes de hoje.

N.G.: Desde a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt,  ficou evidente que as massas podem ser manipuladas. Há quem diga que no fato de abrirmos a boca ou de lançarmos nossos dedos sobre um teclado de computador já existe uma intenção de manipular. Podemos falar de um possível discurso manipulador nas páginas da SAMIZDAT?

H.B.: Primeiro, não sei se é evidente esta manipulação das massas. O conceito de massas é difuso o bastante para englobar tudo e não englobar nada. Todo mundo faz parte das massas em algum momento, e ninguém individualmente faz parte da massa se questionado sobre o assunto. O que parece ter ocorrido foi o seguinte – durante décadas, o público esteve envolto num perturbador silêncio: como diria Baudrillar, “as sobras das massas silenciosas”. Tudo nos levava a acreditar que de fato que o que denominamos massas estavam acolhendo passivamente tudo que a mídia e a indústria cultural vomitava. Em troca, apenas silêncio e dados estatísticos – IBOPE, exemplares vendidos, discos de ouro ou de platina. A resposta das massas chegava através de cifrões, de salas de cinema ou shows lotados.

Todavia, a internet abalou este eixo e expôs, pela primeira vez, o que as massas estavam pensando. Então, se olharmos com atenção, percebemos que cada indivíduo que supostamente compõe esta massa está refletindo e dialogando com os produtos da indústria cultural a seu modo. Até algo simplório quanto um jogo de futebol é capaz de atiçar os ânimos dum indivíduo, fazê-lo com que se levante da poltrona, grite, xingue o juiz e mande o jogador X chutar para o gol. Isto não é acolher passivamente: isto é um diálogo entre um indivíduo real para um outro fenômeno material – livro, filme, música, esporte, etc, produzido, por sua vez, por outro indivíduo real. A manipulação existe, mas a reação a ela também.

Além disto, a escolha por ser manipulado pode ser tão consciente quanto a sua negação. Considerando isto, a Revista SAMIZDAT pode ser tão manipuladora quanto qualquer outro discurso. Um discurso visa expressar um pensamento, um conceito, uma emoção, e está sempre atrelado a uma carga ideológica. A SAMIZDAT quer sim convencer o leitor de algo: a lê-la.

Mas a ideologia da revista está dispersa em seus diferentes textos, em seus diferentes autores e sobre isto não há controle. Meu papel como editor não é de vetar conteúdos que não estejam de acordo com a proposta editorial da revista, mas apenas me certificar que ela estará pronta no começo de cada mês. E, se pararmos para pensar, esta manipulação também está presente nas Universidades e no discurso acadêmico, no discurso dos pais, das igrejas, dos políticos, dos artistas da elite ou do subúrbio. A partir do momento em que abrimos nossas bocas, nós já estamos tentando moldar a realidade de acordo com as noções que consideramos verdadeiras.

N.G.: Adorno fala sobre o discurso da classe dominante embutido em tudo o que provém da mídia. Você também diz algo parecido em “Por que Samizdat“?”. Então, a SAMIZDAT não é uma espécie de “rouba dos ricos para dar aos pobres?”. Isto é, de alguma forma a SAMIZDAT não está reproduzindo textos e falando sobre grandes autores do passado, autores que fizeram parte da classe dominante?

H.B.: Não sei se eu pensaria em termos tão maniqueístas, como classe dominante ou dominada. Mas acredito que todo discurso seja permeado por uma ou mais ideologias, muitas vezes, até por ideologias conflitantes. Isto é consolidado histórica e socialmente e é inevitável que um segmento da sociedade sempre se sinta excluído do discurso oficial; alguém sempre se sentirá excluído do conjunto. Isto é algo que também ocorre e ocorrerá com a Revista SAMIZDAT. Sempre alguém ficará de fora, seja porque sua obra não seja considerada apropriada para a edição, seja por questões de espaço mesmo. Ou seja, um trabalho contra a exclusão acaba por si só sendo também excludente. Fato inevitável.

A seleção de autores consagrados para a SAMIZDAT acaba sim reproduzindo o cânone, independente de a existência do cânone ser uma decisão política ou não. A sobrevivência de obras e de autores ocorre talvez quase como um processo de seleção natural. Até pode ser que um autor tenha se consagrado por haver puxado o saco das pessoas certas, mas existem inúmeros casos que reforçam a certeza de que muitos dos autores canônicos eram realmente excepcionais e, provavelmente, eram os mais competentes de suas épocas. E assim como na seleção natural, as obras que não se “adaptaram” se extinguiram e, muitas vezes, delas não restou rastro. Não temos como constatar se, por acaso, não havia algum autor melhor do que Pushkin ou Dostoiésvsky na Rússia de suas épocas, pois, se havia, simplesmente se perdeu no tempo. Não podemos reproduzir aquilo a que não se tem acesso e, por isto, a SAMIZDAT, ao apresentar autores canônicos, está sim reiterando o discurso dos vencedores, dos mais adaptáveis, dos que resistiram à prova do tempo. Mas não podemos nos esquecer também que muitos dos autores imortalizados foram rechaçados em suas próprias épocas e produziram um silêncio, como Kafka e Fernando Pessoa. Eles não representavam o discurso dominante, mas acabaram se tornando dominantes ao se consagrarem, e esta é uma marcha que sempre se repete: os iconoclastas de hoje acabam por se tornar os reacionários de amanhã.

N.G.: Para Marcuse, o homem pensa que é livre, mas não é. Essa libertação é impedida por aquilo que ele denomina de “falsas necessidades”, aquelas produzidas pela publicidade. Para Marcuse, a libertação virá pela recusa ao sistema, pelo questionamento da sociedade. O que você pensa sobre liberdade, publicidade, recusa ao sistema? Como recusar esse sistema se nos servimos diariamente dele através de todas as tecnologias que nos fazem quase ubíquos? E a SAMIZDAT nesse contexto?

H.B.: Eu acho que a resposta está embutida na própria pergunta: a sociedade sempre será regida por um sistema, por um conjunto de normas. Se recusarmos o sistema, qual sistema acolheremos? Obviamente que isto não implica na cega aceitação de todo tipo de disparates, apesar de ser isto o que o brasileiro cotidianamente faz: aceita passivamente todo tipo de absurdos sociais como se isto fosse normal.

Acredito que o profundo pessimismo do século XX decorre duma aporia e, talvez, duma certa necessidade de romper com tudo que havia sido feito anteriormente. A era industrial trouxe mudanças tão drásticas e súbitas que as previsões futuras não podiam ser positivas, tudo indicava que caminhávamos para o fundo do poço. Ainda não chegamos no fundo, e talvez nem exista tal fundo, e quem sabe do mesmo modo que o pessimismo do século XX tenha sido exagerado, acredito que o nosso otimismo tecnológico para o século XXI também seja um pouco demasiado.

E também não podemos hipervalorizar ou menosprezar demais a relevância da publicidade. Um produto não se torna melhor ou pior por causa da imagem criada em torno dele, e um produto ruim, em nossa época, facilmente desmorona através do boca a boca. Por outro lado, é como dizem: “a propaganda é a alma do negócio”. Se não há divulgação, ninguém chega a conhecer o que você está fazendo. É importante entender este equilíbrio e utilizá-lo em favor daquilo que possui algum valor. Debater o papel da liberdade (ou até a real existência dela) é algo complexo demais para nos determos neste curto tempo.

N.G.: Existe uma “Agenda Setting” na SAMIZDAT? Isto é, vocês determinam os temas sobre os quais o público discute? Ou existe uma participação do público na construção do conteúdo da revista?

H.B.: Eu possuo um calendário mental daquilo que eu gostaria de ver na SAMIZDAT, mas, tirando isto, nossa pauta é organizada mês a mês, edição a edição. As únicas exceções são as edições especiais, a cada quatro meses, que são definidas com bastante antecedência através de voto aberto a autores e leitores. A participação do leitor é pequena, apesar de que nós gostaríamos que fosse maior.

A opinião sobre o que está agradando ou não seria uma informação muito importante para definirmos os conteúdos futuros, mas também temos nossas estatísticas destes leitores silenciosos e pudemos perceber que as edições especiais, direcionadas para gêneros específicos, como Terror, Erótico, Ficção Científica, fazem bastante sucesso, provavelmente pelo recorte e por saciar públicos negligenciados pelo mercado editorial no Brasil.

N.G.: Que mensagem final você gostaria de deixar para os leitores da SAMIZDAT?

H.B.: A publicação por uma editora comercial é o sonho de quase todos os escritores. É a principal legitimação literária e proporciona a sensação de ter se inserido no esquemão editorial. Este também era um anseio meu, até eu começar a perceber que isto se trata dum grande engodo.

O mercado literário não é legitimação de nada, não é garantia de nada, não torna um escritor melhor ou pior. Por outro lado, na última década, a internet tem revolucionado nossa maneira de ver o mundo, revolucionado a cultura, a política, a economia. Nunca antes o produtor cultural esteve tão perto de seus espectadores. Entre eu e meu leitor há apenas uma tela de computador (é claro que precisamos ignorar a legião de técnicos que torna isto possível).

O que eu escrevo agora chega instantaneamente a quem me lê. No ano de 2008, através de meus inúmeros blogs e textos publicados online, 200 mil pessoas chegaram ao que escrevo. Isto é assustador, é algo que me faz refletir: por que preciso da legitimação duma editora? A Revista Samizdat faz parte deste processo, é uma das etapas da consolidação da internet como também uma forma de legitimação do escritor. Há bons escritores publicados, e há os ruins; há bons escritores na internet, e há os ruins. A internet é apenas um meio de publicação como outro qualquer, mais democrático e, por enquanto, mais livre.

Não sabemos os rumos que a cultura tomará, mas uma coisa é certa: nada mais será como antes. Estamos presenciando uma transição da “cultura de massas”, para aquilo que eu chamaria de “cultura das massas” onde todo mundo é criador e, ao mesmo tempo, consumidor cultural.

*Para  saber mais sobre o trabalho jornalístico de Naldo Gomes, clique aqui.

**A entrevista  foi concedida por e-mail e é parte de um trabalho da disciplina “Teorias da Comunicação” do curso de Jornalismo do Centro Universitário Sant’Anna.

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