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2012

por Rodrigo Schiavini

Para quem ainda não procurou saber, 2012 trata do fim do mundo. Isso se você acha que o que vivemos hoje podemos chamar de mundo. E na verdade nem é fim do mundo, porque o mundo continua só as raças que são extintas.

A verdade é que o filme quer mostrar que humanos são estúpidos e só se preocupam uns com os outros quando o pau fecha. E a “preocupação” com os outros é pelo simples fato de esperarem algo em troca no futuro. Escrever uma crítica de um filme catástrofe, geralmente, envolve uma análise sobre as questões técnicas da produção e propõe um debate acerca do assunto que causa toda a desordem na determinada película. Roteiro e desenvolvimento de personagens, tramas e assuntos voltados ao teor artístico são coisas que, para não piorar o balanço final, devem ser postos de lado – claro que jamais totalmente. Por infelicidade, 2012 ainda não é o filme que dará margem para mudarmos esse formato. Aliás, traz o suficiente a ser questionado até mesmo na técnica.

Esqueça os Maias. O único elemento da cultura deste povo que teve alguma serventia foi à previsão catastrófica para o dia 21 de dezembro de 2012. E parou por aí. Ainda assim, o mito que gerou o argumento do novo filme de Roland Emmerich nem ao menos tem seus quinze minutos de existência na tela. Como sempre o governo dos Estados Unidos é o centro de tudo. Sempre os mesmo erros, escondendo a verdade do povo, conspirando e matando milhões de inocentes pra manter uma pose que, devido à destruição, não valeria de nada na nova era da humanidade.

Tirando a parte dos efeitos e destruição em massa, pessoas morrendo, ondas gigantes, terra abrindo e vulcões furiosos, o restante do filme foi mais do mesmo: Um doido que sempre acreditou na destruição do mundo e na hora que o diabo se solta fica no meio da confusão pra ver tudo pegar fogo e morrer. Pessoas que estão no hemisfério sul indo para o hemisfério norte e magicamente sabem pilotar aviões melhor que pessoas que já está há mais de 30 anos no ramo, sem contar os desgraçados de sorte que ta tudo caindo, tudo pegando fogo e eles conseguem desviar de tudo sem sofrer um arranhão sequer.

Em 2009, o cientista indiano Satnam Tsurutanium descobre através de suas pesquisas que uma erupção solar está causando o aquecimento do núcleo do planeta e, mais cedo ou mais tarde, isto causará transtornos colossais em toda a estrutura da Terra. Terremotos, tsunamis, vulcões em plena erupção; toda a ordem de desastres naturais virá a ocorrer a cabo de três anos, mudando completamente a fisionomia do globo e ameaçando a sobrevivência nele. Antes do previsto pelos cálculos do cientista, o planeta começa a reagir. É neste ponto – único – em que a previsão maia ganha alguma visibilidade; bem passageira.
Não fosse pela existência de O Dia Depois de Amanhã, do mesmo diretor, 2012 seria interessante. A narrativa é composta de quase todos os elementos e se arrasta por mais de duas horas e meia seguindo os passos infalsos de Independence Day. Não satisfeito, insere um contexto familiar fraquíssimo que engloba uma série de lugares-comuns, e aí independe de qual gênero ou tipo de história ele absorve isso. Nesta trama (ou falta de), John Cusack vive Jackson Curtis, um escritor sem sucesso e pai divorciado que raramente vê os filhos que moram com a mãe e o padrasto (realizado profissional e economicamente – acrescente ao clichê). Em um acampamento com os filhos, no qual Curtis é obrigado a se desligar do trabalho para atender aos pedidos carentes da prole (não pare de acrescentar), o escritor se depara com um fanático (Woody Harrelson) que o avisa sobre os fatos que estão por vir. Pouco ou nenhum andamento relevante à frente, Curtis se vê numa maratona para resgatar os filhos, a ex-mulher e atual marido desta e, unidos, chegarem a um lugar longícuo em que há alguma salvação – que é o apogeu da tentativa de burlar a inteligência do espectador em enxergar o quão premeditado é a história do começo ao fim.

Se 2012 têm algum ponto positivo, ele dá as caras agora e se despede em seguida, só retornando em raras seqüências. A fuga de Los Angeles em chamas e em queda é absolutamente incrível não só pelos efeitos visuais acima da média, mas pela forma como Emmerich, de fato, sabe comandar cenas deste porte. Os ângulos e enquadramentos demonstram abundância do controle da situação e a perseguição pela sobrevivência é não só a melhor como a mais criativa de toda a projeção pela quantidade de elementos envolvidos na tela; de prédios gigantes despencando em efeito dominó a metrô brotando da parede de penhascos driblando uma aeronave em pleno vôo. Mas a euforia não percorre ao longo, afinal, tampouco consegue inserir algum momento de aflição. E se a computação gráfica sabe dar o destaque e imponência a boas cenas de destruição em massa, ela falha lamentavelmente em composições simples em que é possível ver claramente que os atores estão diante de um cromaqui (a famosa tela verde ou azul). Em outros momentos, quando opta por criar alguma novidade, desperdiça. É o caso da destruição do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, exibida com ar acessório e enfraquecido. Ou, ainda, quando procura focar no desmoronamento religioso (literalmente) e acaba por construir metáforas que de tão batidas chegam a ser grosseiras.

A maior desgraça proporcionada por 2012 está longe de ser o fim do mundo, e sim a autodestruição do próprio filme; lenta e gradativa. Ao passo que o globo terrestre se desfaz em meio à força de sua própria natureza descontrolada, 2012 o acompanha aniquilando toda e qualquer possibilidade de reconhecimento ao tentar ser tão óbvio e falsamente realista (isto vai desde o presidente americano negro e altruísta até o método de sobrevivência da vida proposto pela história). E para piorar ainda mais, não aguarda nem mesmo o próprio fim para se mostrar tão limitado.

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Categorias: Cinema

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