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A estrela que ainda brilha

Por Érica Perazza, Raquel Almada e Thaís Teles

Intensa, ousada, tímida. Muitas características seriam necessárias para descrever aquela que é considerada um dos maiores ícones da literatura brasileira.  A escritora era tão enigmática quanto suas obras, durante a última entrevista que concedeu, em 1977, para o jornalista da TV Cultura, Julio Lerner, para o programa Panorama, da TV Cultura, disse que só gravaria com a condição de que fosse transmitida somente após a sua morte. Assim, veio ao ar no programa 30 Anos Incríveis da TV Cultura, com apresentação de Gastão Moreira.


 

 

Ao longo de toda entrevista Clarice parecia cansada e desviava o olhar quando se sentia acuada, para dinamizá-la ou diminuir a tensão acendia um cigarro. Com ar desconfiado respondia diversas perguntas em tom sereno, objetivo e conciso, como quando Lerner perguntou “qual é o papel do autor comtemporâneo?”, Clarice simplesmente disse: “O de falar o menos possível”, ou então camuflava-se em seu silêncio. Ela não fugia à sua normalidade: declarações concisas, envolventes e objetivas.
Clarice Lispector cresceu em terras brasileiras. Veio para o Brasil com apenas dois meses e mostrou que não precisa nascer no país para ser brasileira, imergindo de maneira marcante também nos problemas sociais do país, expondo sua visão no livro A Hora da Estrela, através da anti-heroína Macabea. Dizia que era brasileira e pronto.

Em 1919, sua mãe, Mania Lispector, contraiu sífilis, pois fora brutalmente estuprada por soldados russos durante a pós-revolução bolchevique. Felizmente, no ano seguinte, ficou grávida. Havia uma crença de que a gravidez era a purificação. Foi então que nasceu, no dia 10 de dezembro daquele ano, Clarice Lispector, tendo recebido o nome de Haia Lispector, numa cidade chamada Tchetchelnik, local que sua família fez uma pausa durante a viagem de fuga do genocídio de judeus, em direção à América. Em 1922, a família chega ao Brasil, especificamente Macéio.
 
  

Logo começou a construir mundos exarcebados de intensa ruptura e subjetividade. Em dezembro de 1943, publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Escrito quando tinha 19 anos, o livro apresenta Joana como protagonista, a qual narra sua história em dois planos: a infância e o início da vida adulta. Dentre as suas obras, a que para ela significava um mistério era O Ovo e a Galinha. Ela vivia intensamente a arte que fazia, e como leitora, ficava intrigada com os seus próprios textos, se ficcionalizando e se enxergando como personagem. Escreveu sem esperança de alterar qualquer coisa, mas sim desabrochar, como o fez com A Hora da Estrela, através da anti-heróina Macabea, a contrapartida de Macunaíma, revelando os problemas sociais presente no Brasil na época.Sua vocação para escrever veio desde pequena, assim que começou a ler, começou a escrever pequenas histórias. Em sua adolescência, ao ver a literatura como um campo de criação, começou a escrever apenas por escrever, sem nenhum objetivo. Disse que a produção de sua adolescência era “caótica, intensa e inteiramente fora da realidade da vida”. Tímida mas ousada, antes de publicar o seu primeiro livro, já escrevia para jornais e revistas.

 

 


Porém, não há uma data exata que especifique o início de sua carreira. Segundo a autora: “Assim que comecei a ler e escrever passei a confabular diversas histórias, uma delas era caracterizada por nunca ter um fim. Não tenho uma data certa, meu encontro com a literatura, foi algo natural e com ela passei a me sentir livre da realidade, da vida”. Dizia ainda que escrevia para ficar livre de si mesma e ao fazer uma comparação entre o adulto e a criança, disse: “O adulto é triste e solitário e a criança tem a fantasia solta”. Mas ela não se considerava solitária e disse que estava triste na entrevista porque estava cansada, resultado de sua fragilidade física, em função do câncer. Disse ainda que o ser humano começa a se tornar em triste e solitário a qualquer momento da vida, bastando um choque inesperado para isso acontecer.
A arte de criar personagens sempre esteve presente na família Lispector, as irmãs e a mãe de Clarice também se envolveram nesse exercício: “Soube há poucos meses, através de uma tia, que minha mãe fazia diários e escrevia poesias”, afirmou.



 

 

 Assista um trecho da última entrevista com Clarice Lispector dada ao jornalista Junio Lerner para o programa Panorama em 1977

Compreender a personalidade de Clarice Lispector é tarefa impossível, Nádia Gotlib acredita que a autora atingiu um patamar extremamente elevado de criação, na qual “foi ficcionalizando-se como personagem”. Sua última obra, “A Hora da Estrela”, é o único livro no qual a escritora faz um retrato da escassez alimentícia e moral das pessoas que vivem em pequenos povoados nordestinos. De acordo com a autora: “A história é de uma ausência pisada, de uma ingenuidade anônima”. Em 1985, a cineasta, Suzana Amaral, adaptou a obra ao cinema: “Tive contato com o livro de Clarice Lispector nos Estados Unidos, quando estudava cinema. Ou seja, descobri o Brasil fora do Brasil. Macabéa é uma heroína sem caráter é a imagem do país naquela época”, afirmou. O longa rendeu diversos prêmios, como o de melhor ator, atriz, fotografia, diretor, edição e filme no Festival de Brasília de 1985 e de melhor atriz, no Festival de Berlim, do ano seguinte.

Clarice acredita que foi o destino que a levou a escrever o que escreveu. Sempre quis ser uma lutadora, ” uma pessoa que luta pelo bem dos outros”. Confessou uma vez que tornara-se alguém “que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.”

 
Lispector também traduzia livros como Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice. Foi colunista do Jornal do Brasil, do Correio da Manhã e Diário da Noite. A versatilidade sempre esteve presente em suas obras. Clarice escreveu tanto para adultos como para crianças com a mesma dedicação, “vivia intensamente a arte que fazia, não pensava somente no leitor nem em sua satisfação como autora. Queria apenas dizer”, afirmou a biógrafa, Nádia Battela Gotlib, autora de Clarice, uma vida que se conta.

 
 

O primeiro contato de Lispector com o universo infantil ocorreu de maneira inusitada, seu filho, com apenas seis anos, pedira para que a mãe lhe escrevesse uma história. Ela o fez guardou. Somente anos depois voltou sua atenção ao conto e resolveu publicá-lo. Leitores adultos foram conquistados naturalmente, a dificuldade de aceitação por parte destes, era vista por ela como algo desafiador: “O adulto é mais difícil por ser mais triste e solitário, já a criança tem sempre a companhia da fantasia”,A autora não se considerava uma intelectual. Segundo ela, ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que ela não fazia. Ela apenas usufruia de sua intuição e instinto. Outro rótulo que não gostava de ser uma escritora profissional. “Profissional é aquele que faz da escrita uma obrigação para si e para os outros. Faço questão de não ser rotulada como uma profissional da arte de escrever para manter minha liberdade”.

A verdadeira Clarice Lispector só seus conhecidos íntimos e familiares souberam quem foi. Porém, ninguém a compreendeu e ela mesma se sintetiza: “sou tão misteriosa que não me entendo”.

 

Falecida um dia antes de seu 57°aniversário devido a câncer e uma súbita obstrução intestinal, que mais tarde descobriram ser um adenocarcinoma de ovário irreversível, foi enterrada no Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju. Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas e afirmava veementemente que jamais escreveria uma autobiografia. Mas muitas vezes em suas publicações, ela deixou escapar pedaços de sua densa personalidade: “Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada.”

  

Suas obras continuam sendo singulares e conquistando cada vez mais admiradores, a linguagem simples se entrelaça com a complexidade do comportamento humano, característica que marca seus personagens que, em suma, nada mais são do que fragmentos da própria autora traduzidos em palavras.

Suas últimas palavras foram: “Estou cansada de mim mesma. Agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto estou morta.”

 

Assim, Clarice Lispector, de olhar perdido e marcante, revela que mesmo no pouco falar, é possível dizer verdades através das palavras escritas. O câncer pode ter-lhe atingido o cérebro, mas não deixou com que sua estrela perdesse o brilho.

 

 

Ao longo de toda entrevista Clarice parecia cansada e desviava o olhar quando se sentia acuada, para dinamizá-la ou diminuir a tensão acendia um cigarro. Com gestos e olhares desconfiados respondia diversas perguntas com tom sereno, objetivo e conciso, como quando Lerner perguntou qual era o papel do escritor contemporâneo simplesmente disse: “O de falar o menos possível”, ou então camuflava-se em seu silêncio. Ela não fugiu à sua normalidade: declarações concisas, envolventes e objetivas.
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Categorias: Literatura, Perfil Lisipo

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um comentário em “A estrela que ainda brilha”

  1. Isabela Bueno
    11 de junho de 2010 às 12:06 #

    Muito boa a reportagem! Clarice foi fantástica, os livros dela são muito bons!

    Com certeza a estrela dela nunca apagará!

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