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Doutores da Alegria atigem a maioridade

Por Rafael Carneiro da Cunha

“Hoje tem marmelada? Tem sim, senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim, senhor. E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher”

É nesse clima de descontração que os Doutores da Alegria chegaram à maioridade. Passados 18 anos de sua fundação, a ONG é aplaudida de pé por um respeitável público devido ao seu trabalho de levar alegria a crianças hospitalizadas.

A iniciativa veio de um palhaço, que ao contrário de muitos, não iniciou a carreira no circo e sim, nos hospitais dos Estados Unidos. O ator Wellington Nogueira atuava em peças de teatros na cidade de Nova York quando no final da década de 80 foi convidado a participar do Big Apple Clown Care Unit (Unidade de Tratamento com Palhaços de Nova York). Encantado com o trabalho decidiu continuar no ramo e se tornou um dos palhaços do Columbia Presbyterian Baby Hospital.

Paralelamente a isso, conviveu com o derrame que seu pai teve e resolveu utilizar as técnicas aprendidas no exterior. Segundo Wellington, todo o quadro de seu pai fez com que ele tivesse uma grande idéia, trazer para São Paulo o que fez nos hospitais nova-iorquinos. Loucura? Talvez. O resultado dessa maluca experiência é que hoje, os Doutores da Alegria já acumulam 652.031 visitas a hospitais e estão presentes nas cidades de São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Só na capital paulista, são oito hospitais atendidos e um elenco de 47 palhaços.

Quem pensa que os doutores entram facilmente nos hospitais, se engana. O processo leva um tempo e exige muita conversa tanto com os médicos, quanto com os pais dos pacientes. “Na nossa primeira ida ao hospital falamos com os pais e vamos de cara limpa. Se recebemos um sinal verde, começamos a entender a dinâmica da criança e escolhemos dois dias para as visitas”. Daí por diante, só aparecemos maquiados”, explica Welington, que hoje também é o coordenador da ONG.

Todas as brincadeiras realizadas com os pacientes são feitas sempre por uma dupla de artistas. Eles não ensaiam previamente os números porque estes são construídos a partir da situação de cada paciente. De acordo com o balaço de 2008, 85,4% das crianças apresentam evidências clínicas de melhora.

E como posso ser um dos palhaços? Não é preciso ter diploma de médico para ser um doutor desse tipo. A única exigência é que os interessados passem por um período de formação na escola de palhaços, que atualmente funciona no Espaço Doutores da Alegria localizado na Rua Alves Guimarães, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Discreto, o local muitas vezes passa despercebido aos olhos de um paulistano apressado, o que não é fora do comum. Mas, com um pouco de atenção, é possível perceber que no último quarteirão para quem vai no sentido da avenida Rebouças, há no número 73 um portão vermelho. Ao abri-lo, a sensação de aconchego toma conta de si. Paredes e objetos coloridos se misturam às luzes e painéis da casa de três andares. Ao final de um dos estreitos corredores há uma escada que te leva a um galpão, local onde a alegria é presente 24 horas por meio de aulas, espetáculos, palestras e rodas de conversas.

Considerado o menor centro cultural de palhaços do mundo, o espaço ainda oferece um acervo que conta com vários livros e vídeos destinados às pesquisas dos artistas, dos alunos e de pessoas interessadas nas artes cômicas em geral.

A iniciativa de se construir um lugar como este começou a ser pensado em 2007, quando Wellington passou a perceber que não só os hospitalizados estavam doentes, mas a sociedade também. Isso gerou cada vez mais uma necessidade de dividir o conhecimento deles com o público. “Ainda estamos aprendendo a fazer esse trabalho e o maior objetivo é construir um centro de referência em São Paulo que vivencie a cultura da alegria”, diz o diretor executivo Luiz Vieira.

É impossível circular no espaço e não cruzar com alguma pessoa movida pela arte da alegria. É um vai e vem de funcionários, jovens e de artistas formadores como Roberta Calza, que logo ao entrar pelo portão vermelho se dirigiu imediatamente ao galpão. Ela não perdeu tempo e foi direto ao assunto, o espetáculo que iria acontecer no próximo sábado.

Mulher de 32 anos, formada em artes cênicas por uma escola francesa e em publicidade e propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Roberta optou pelo mundo do teatro, mas não pensava em ser uma palhaça. Foi quando conheceu Wellington e ficou curiosa pelo trabalho desenvolvido por ele nos Doutores da Alegria.

“Uma vez que você entra nos Doutores, você passa a ter uma concepção do que é ser um cidadão diferente. Tem uma função social muito forte e a minha concepção do ofício de atriz mudou por conta desse trabalho”, diz a artista.

Com uma rotina pesada, a enérgica atriz ainda consegue atuar nos palcos dos teatros, mas dedica a maior parte de seu tempo para as aulas de movimento do corpo e de palhaço dadas por ela.

Nos seus três primeiros meses na ONG, Roberta passou por um treinamento e lembra que ficou muito abalada com o primeiro óbito, mas isso não a fez desistir. Com o passar do tempo, começou a se acostumar com as visitas nos hospitais. “A gente se vicia no cheiro do hospital. A máscara de palhaço me protege muito porque encontro uma outra maneira de enxergar o mundo. Eu não fantasio uma realidade e continuo vendo ela muito bem. Mas, eu tento buscar um jeito alegre e reflexivo de ver a vida. O hospital nunca vai perder as suas características, mas ele pode ganhar outras”, afirma.

Assim como ela, Wellington também passou a ver a vida de uma forma mais positiva depois que começou a fazer esse tipo de trabalho. “Estamos ficando cegos, mudos e surdos para os outros e principalmente para nós mesmos. Devemos celebrar a alegria nos momentos mais simples, porque a única certeza que a gente tem é o presente”, diz o ator.

O vírus da alegria se expande

Além do Centro Cultural, o Doutores da Alegria também tem o programa “Palhaços em Rede”. Criado em 2007, ele proporciona que grupos que trabalham com a terapia do riso articulem uma rede visando a troca de experiências.

Há também grupos que não fazem parte da rede, mas que desenvolvem trabalhos na mesma linha. É o caso do Médicos da Alegria, projeto que nasceu há nove anos, na Faculdade de Medicina da UNESP em Botucatu, cidade do interior paulista. Atualmente conta com cerca de 60 pessoas, provenientes de diversos cursos como medicina, veterinária, física médica, nutrição, biomedicina, enfermagem, agronomia, biologia e também pós-graduandos.

Cursos de capacitação com duração de dois dias são oferecidos aos estudantes que desejam ingressar. Depois começam as visitas às crianças hospitalizadas. Há também um acompanhamento psicológico, oficinas para confecção de origamis e escultura de balões, além de auxílio de um palhaço para lidar com as diversas situações.

“Participar do Médicos da Alegria é maravilhoso. Cada dia é uma emoção diferente e uma motivação para realizarmos a próxima visita. As crianças nos esperam, contam conosco e assim temos um compromisso com elas. Nestes quase dois anos que participo do projeto, vi muitas situações de sorrisos, gargalhadas, pacientes que se recuperaram mais rápido devido à nossa visita. São pessoas que mesmo com muitas limitações físicas, são verdadeiros exemplos de força e de luta pela sobrevivência. Vi também lágrimas, crianças que já não estão mais entre nós, porém suas marcas estarão sempre em meu coração. São tesouros para vida toda e por isso digo que vale a pena doar-se”

Este é  um depoimento de Isabella Ricoboni, uma das coordenadoras do Médicos da Alegria, que completa 10 anos no ano que vem e tem como meta diminuir as fragilidades ainda presentes no projeto.

Trabalhos no ramo da “besteirologia” como o dos Médicos da Alegria e de tantos outros grupos são a prova de que aquela iniciativa inusitada de Wellington Nogueira deu certo nesse circo que é a vida.

Texto da home: Pioneira no ramo da besteirologia, a ONG Doutores da Alegria completou 18 anos se tornando um exemplo para o Brasil.

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Categorias: Saúde, Teatro

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