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Um véu cobre a realidade brasileira

Desaparecidos ou Esquecidos?
Crianças somem todos os dias, mas são esquecidas pelas autoridades

 

Por Érica Perazza

 

Você já ouviu falar nas Mães da Sé?

Mães da Sé é a Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD), uma entidade sem fins lucrativos, que congrega familiares e amigos de pessoas desaparecidas. Em pouco mais de 7 anos de existência, a Mães da Sé já cadastrou mais de 5.000 casos de pessoas desaparecidas em todo o país. Aproximadamente 15% foram solucionados. Contudo, são mais de 200 mil casos por ano no Brasil. As mais frequentes causas por trás dos desaparecimentos são fugas de crianças e adolescentes que vivem algum conflito familiar, abandono material ou violência; crianças que se perdem (algumas são encaminhadas a abrigos).

 

 

Algumas somem enquanto brincam em frente de sua própria casa.

O perfil mais comum nos registros é o de menores de origem pobre, pele clara e muito bem afeiçoados, mas sem uma faixa etária definida.O destino mais longe das que fogem de casa é Santos. Todavia a maioria parece evapovar do mapa, não deixa nenhum rastro se quer. Elas tanto podem ser aquela que lhe pediu um real no trânsito como a próxima da fila no tráfico de pessoas para a Europa e Ásia, principalmente. Além do mais, existe ligação com o tráfico de órgãos, de drogas e também à adoção ilegal e à exploração sexual.

Segundo a ONU, são mais de US$7 bilhões que o tráfico internacional de pessoas movimenta por ano. Fica atrás dos US$750 bilhões a US$ 1 trilhão da indústria do narcotráfico e dos US$105 bilhões lucrados através de golpes feitos pela internet.

 

O primeiro lugar em prosituição infanto-juvenil na América Latina e o segundo mundial vai para o Brasil. Mais de 500 mil meninas e meninos se prostituem no país todos os dias. Em certos lugares do país, os corpos pequeninos são vendidos a R$1,99. O turismo sexual gera US$12 bilhões por ano.

Quando a novela global Explode Coração foi ao ar, essa situação brasileira veio a tona. “Na época, houve grande divulgação. Hoje em dia, não mais. Com o tempo as pessoas se esquecem. Mas o problema continua existindo.”, conta Ivanise Esperidião da Silva, presidente das Mães da Sé. 

 

Um silêncio toma conta da realidade. O mundo dos desaparecidos tornou-se um mundo paralelo. Um mundo que existe deveras, mas que vemos como um cenário gasto na cidade.Ivanise pergunta-se se nós realmente paramos e olhamos para cada rosto em um cartaz com fotos de várias crianças que sumiram sem deixar uma pista. Não, não olhamos.Ivanise há treze anos não sabe o que é comemorar Natal, Ano Novo ou nenhum dia mais em sua vida desde que a sua filha mais velha desapareceu. Mesmo tomando anti-depressivos, ela não consegue se libertar. Da saudade constante? Da culpa inconsciente? Será que a dor chegaria a um fim? Até lá, ela morreria aos poucos, dolorosamente, todos os minutos de espera, todos os dias de esperança interminável. “Quantas vezes eu não abordei pessoas no metrô de costas, pensando que era minha filha!” 

 

Ivanise já chegou a se sentir aliviada muitas vezes. Recebera antes telefonemas que haviam encontrado sua filha, mas eram trotes. Da última vez, sua filha estava supostamente em Santa Catarina, com 24 anos, casada e com 3 filhos. Após a alegria de ser avó, veio a tristeza. Ivanise mal podia falar devido a decepção. “Minha filha adorava bolo de banana e lasanha.” Há treze anos ela não sabia mais qual era o sabor. “O ser humano não tem limite. Ele não respeita os sentimentos alheios, a não ser o próprio.”

As autoridades brasileiras fogem descaradamente de cumprir o seu papel. É previsto pela lei 11.259/06, que a cada novo caso registrado, a delegacia é obrigada a iniciar uma busca e acionar aeroportos, portos e terminais rodoviários. Se isso realmente acontecesse, a porcentagem dos casos de desaparecimento diminuiria significativamente. Segundo Ivanise, a polícia divulga que 80% dos casos são solucionados, mas no mundo real, são apenas 25%.Todas as mães, inclusive ela, se perguntam a todo segundo: “Onde está meu filho? Se ele está vivo, por que não aparece? Se ele está morto, cadê o corpo?”. Ainda emocionada, Inanise faz uma queixa: “Nós preparamos nossos filhos para nos enterrarem e não ao contrário.”




Para entrar em contato com a Mães da Sé:
Telefone: (11) 3337-3331

Endereço: Rua São Bento, 370 – 9º andar conjunto 91 sala 02.
Disque-Denúncia: 0800-990-500

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Categorias: Caixa de Pandora, Território Nacional

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2 Comentários em “Um véu cobre a realidade brasileira”

  1. Roberta (Pands)
    6 de agosto de 2009 às 20:39 #

    a história toda é um absurdo e tratada com supremo descaso. é mais triste ainda ver que tem pessoas que brincam com o assunto. sinceramente não sei que tipo de ser humano (humano?) passa trotes relacionadas a isso. pode ser fácil, mas não vejo COMO alguém pode rir da dor dos outros… eu lembro dela falando disso, fiquei e mais uma vez fico indignada com toda situação.bom texto, minks.

  2. comentarnaodoi
    10 de agosto de 2009 às 16:34 #

    É triste o descaso das autoridades principalmente com as classes baixas, este artigo deu um exemplo de como eles realmente "se preocupam" com a população. Os "esquecidos" somos nós também, basta ir à qualquer Pronto Socorro do país e verá o total descaso no serviço público. Por isso e muito mais sou à favor da Revolução, primeiro da consciência através das escola, estas também jogadas às traças, depois de todo esquema polítco e dessa "democracia" burra em que apenas os ricos têm os direitos respeitados.

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