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O Rock sob os destroços do Muro de Berlin

Como o capitalismo conseguiu mudar a música entre 89 e 95
 

Por Rafael Albuquerque
Simbolicamente, construir um muro significa ser intolerante, negar o que há do outro lado. Mas, além dessa simbologia, o grande muro construído em 1961 para dividir a Alemanha em duas partes possuiu duas simbologias, uma em seu nascimento – a intolerância entre capitalistas e comunistas – e outra em sua morte. A queda do muro, em 1989, decretou muito mais do que apenas a reunificação alemã. Foi também a queda de um sistema inteiro, enorme, e, ao mesmo tempo, a ascensão de outro, que em pouco tempo transformaria tudo o que fosse possível em mercadoria. Inclusive o Rock.

Nesse novo mundo já não havia mais espaço para os questionamentos do rock subversivo dos anos 70, tampouco para a inocência das bandas New Wave dos anos 80. Dia após dia, as gravadoras pressionavam os músicos para venderem mais, enquanto, quase que proporcionalmente, eles se mostravam perdidos no mercado. Como uma regra dos anos 90, o rock se tornou um mero produto, pouco importando o caráter artístico que as músicas possuíam, mas sendo considerados os lucros que geravam. Fato que ilustra bem esse momento foi a crise enfrentada pelo Iron Maiden em 1993. Pressionados pela baixa venda de discos, a maior banda do heavy metal teve que lançar, no mesmo ano, dois discos ao vivo, ambos da mesma turnê. Era o início da chamada “Década Perdida”.

A esperança na primeira metade dos anos 90

Apesar de apenas os mais vendáveis sobreviverem no cenário musical dos anos 90, a criação de boas bandas não se interrompeu, e logo no início da década surgiam dois movimentos que “salvariam” o rock de uma possível rotulação. No Oeste dos Estados Unidos surgiu o Grunge, movimento encabeçado pelo polêmico grupo Nirvana, mas com outros importantes grupos, entre eles Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains; no Reino Unido, especialmente na Inglaterra, pipocavam grandes bandas do chamado Britpop, como Blur, The Verve e Supergrass. Nos outros países do Reino as coisas iam bem: Trainspotting, com um carregadíssimo sotaque escocês, estava nos cinemas, o grupo galês Catatonia cantava “Every day when I wake up I thank the Lord I´m Welsh” e, ainda em Gales, surgia a maior banda desse país, os Manic Street Preachers.

Fazendo um rock completamente sujo, descarado e com letras fortes, talvez como um reflexo generalizado da sociedade estadunidense da época, o Nirvana apareceu para o mundo como um soco na boca do estômago com Nevermind, o segundo álbum do grupo. Um ano após, mais exatamente em fevereiro de 1992, os Manic Street Preachers lançam o seu primeiro disco, Generation Terrorists, dizendo que esse seria o único álbum do grupo; “venderemos 16 milhões de cópias e acabaremos com a banda” era o que costumavam dizer em entrevistas. Influenciados por filósofos como o alemão Karl Marx e bandas de hard rock e punk, eles vendiam em seus shows camisas referentes ao socialismo e eram chamados de uma banda “socialista punk retro”. Os Manics, como como eram conhecidos, entendiam muito bem a nova política pós-guerra fria e a maneira que a sociedade mudava, fazendo em suas letras críticas muito pesadas e sensatas à sociedade e aos governantes. Nas músicas do primeiro álbum definiram a sua geração como inútil e alienada, além de duras críticas ao machismo e aos bancos dominantes da época, um tema ainda atual, mesmo depois de 17 anos, se observarmos bem a crise financeira que enfrentamos hoje.

1994 – O ano chave da década

Muitos fatos desse ano entraram para a história da música. E um deles colocou um ponto final no fôlego que o rock vinha conquistando pouco a pouco. Talvez por compreender bem a sociedade e a maneira de viver que era imposta pela soberania capitalista, Kurt Cobain suicidou-se em abril de 94. Nunca poderemos saber o verdadeiro motivo que o fez puxar o gatilho, mas é possível dizer que ter sido transformado em um produto cooperou para isso. Os shows do Nirvana estavam cada vez mais lotados, a banda gerava rios de dinheiro, mas não era isso o que ele realmente desejava.

No mesmo ano, os Manics lançaram seu álbum mais importante, The Holy Bible, mas que foi também o mais introspectivo, sombrio e mórbido por conta da fase depressiva que vivia o guitarrista e letrista Richey James Edwards. Em uma análise sobre o álbum na revista New Musical Express, um crítico fez o seguinte comentário: “Oh-oh. A última vez que ouvi algo assim foi no In Útero [último álbum do Nirvana] e todos sabem o que aconteceu com o Kurt. Richey, por favor, tome cuidado”.

Durante a turnê do disco, se pronunciaria aquilo que seria mais uma tragédia no rock dos anos 90. Na edição de 1994 do festival de Reading o grupo se apresentou, pela primeira vez, como um trio; Richey estava internado em uma clínica para desintoxicação, e a banda subiu ao palco para arrecadar o dinheiro do tratamento. Em vão. No ano seguinte, Richey simplesmente desapareceu. Ninguém sabe se houve suicídio – seu carro foi encontrado estacionado em uma ponte, há quem diga que ele se atirou – ou se ele ainda está vivo. Entretanto, em dezembro do ano passado, a sua família afirmou que já não tem mais esperanças, e acreditam que ele está realmente morto.

Logo mais, na segunda metade dos anos 90, viria um ressurgimento do rock após as tragédias de Kurt Cobain e Richey Edwards com o ótimo disco do Oasis, Be Here Now, lançado em 1997 e que proporcionou uma turnê memorável. Também surgiram novos grupos, como o escocês Travis e o Coldplay, inglês, ambos em 1998. Mas é inegável que foi completo, em 1995, mais um particular capítulo do rock que se misturou à política.

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Categorias: Música

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um comentário em “O Rock sob os destroços do Muro de Berlin”

  1. Matias Francisco Siqueira F.
    31 de julho de 2009 às 18:20 #

    Muito interessante a forma abordada de anunciar tais questões relativas ao meio mais sensível da música, o rock. De fato, como um campo que permite integrações de vários ideais distintos, é essencial entender todo o processo de desenvolvimento musical referente ao período proposto. Existiram diversos fatores que implicaram na formação de movimentos musicais, que foram relatados resumidamente, porém não se perdeu a idéia principal. Falar sobre música requer cuidado, pois o número de ouvintes bem informados é muito grande. O texto demonstrou coerência diante da linguagem e profundo conhecimento do assunto. Como leitor, ouvinte e músico desejo sucesso e maiores trabalhos a Rafael Albuquerque. Parabéns

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